MotoContínuo
Bueno, de vez em quando
Bueno, de vez em quando
me faço de louco e escrevo um counto.
MotoContínuo
Eu estava indo para meu trabalho como fazia todos os dias há 25 anos. O celular tocou o e azulzinho na esquina me obrigou a parar o carro na primeira vaga disponível defronte à praça.. Atendi o aparelho e, enquanto conversava com o colega de esporte, acompanhei com os olhos um grupo de pivetes que jogava futebol. A bola foi chutada e veio na direção do meu carro. Pensei que ela ia bater na lateral dele quando um pivete veio correndo rápido e segurou-a. Fiquei assombrado com a velocidade do pivete. Fiquei mais assombrado ao ver que não era um pivete e sim uma pivete. E fiquei mais assombrado ainda ao ver que a pivete estava grávida! Toda esta admiração me fez ficar fitando-a fortemente. Ela pegou a bola com as mãos e me olhou.
_ O que é velho tarado ..... vai ficar aí me olhando com esta cara de bunda???
Fiquei parado feito um abobado.
_ Alô? Alô?
A voz do Hugo ao telefone me acordou.
_ Desculpe cara, você não sabe o que me aconteceu agora.
Contei para ele, que se finava de rir do outro lado da linha.
_ E aí, cara. Mas me conta, tu gostaste mesmo da pivetinha?
_ Vai tê fudê, cara. Queria ver o que tu faria se tivesse na minha.
_ Ta legal, não precisa te esquentar. Afinal, vais ou não vais?
_ Vai onde, Hugo.
_ Porra, cara, tu realmente não prestastes atenção no que eu te falei.
Perguntei antes, quando tu ficavas paquerando as pivetinhas da praça ......
_ Vai à merda!!!
....se tu vais na reunião do grupo do Kart, hoje à noite.
_ Não sei se vou, não sei a que horas saio do serviço.
_ Tá bom, se tu fores a gente se fala. Tchau.
_ Até.
Desliguei o telefone, olhei para a praça, onde a pivete grávida me fazia o tradicional gesto de vai tomar no cú.
Arranquei o carro e retomei meu trajeto para o serviço. Não me saía da cabeça a imagem daquela criança, que mais parecia um guri, e com a barriga mostrando uma gravidez.
Eu e minha esposa decidimos não ter filhos. Meus amigos sempre me diziam que eu não gostava de crianças. Isto é parcialmente verdade. Não gosto de crianças pequenas, na fase em que ainda não conseguem interagir por serem pequenas demais. Também não gosto de crianças mal educadas e que não se mantém na sua situação de crianças.
Fazendo um aparte, hoje, principalmente nas cidades grandes, os pais não permitem que as crianças sejam crianças. Passam-lhes, junto com a mídia, um papel de pequenos homenzinhos e pequenas mulherzinhas, cobrando-lhes posturas que não são condizentes com sua idade. Em contrapartida, as crianças intrometem-se nos assuntos que não lhes pertencem, perturbam os relacionamentos dos adultos. É a cobrança que elas conseguem fazer.
Isto me faz lembrar do título de um livro que já tive vontade de escrever.:
_”A Ditadura dos Filhos Únicos”.
Eu dizia que não queria ter filhos, mas ver aquela pivete, uma criança num campo de futebol, já grávida, me incomodara.
Fiquei imaginando que tipo de vida aquela pivete tinha.
Quando eu fora adolescente, tivera vários conhecidos que moravam na periferia, em vilas. Não tinha preconceito em andar com eles. Mas o passar do tempo, o cursar as faculdades, novos horizontes, ... tinha me afastado deles. De vez em quando vejo um ou outro. Fiquei sabendo de um que havia sido morto em briga de gangues.
Hoje não faço mais questão de vê-los.
Não me acrescenta em nada e não posso ajudá-los a sair de onde estão.
Acho até que eles nem querem mesmo.
That’s life
II
_ Oi, Dani, vamos jogar futebol?
_ Vamos, só deixa eu terminar de ajeitar as coisa prá janta do pai.
_ Legal, te esperamos na pracinha, disse Léo.
Daniela é uma menina que mora na vila ZeroHora. Tem 14, quase 15 anos, como faz questão de dizer para todo mundo. Nascera em Cachoeirinha. Sua mãe, que Dani faz questão de não guardar o nome, abandonara ela e o pai, “SêoZé”, a mais tempo do que conseguia lembrar-se. Quando Mãe foi embora, Pai entrou em desespero. Andou rolando de bar em bar todos os dias, mas Dani bebê sempre o fazia voltar à noite para casa. O dono da fábrica no distrito industrial bem que tentou compreender e durante algum tempo, sabedor do que a mulher do “SêoZé” havia feito, segurou as pontas. Mas as coisas ficaram insustentáveis e teve que despedir “SêoZé”. Quando o fundo de garantia terminou, a fome apertou e “SêoZé”, que não era mais criança, teve que acabar catando papéis para sobreviver. Cachoeirinha ficou longe para o “SêoZé”. Trocou a casinha em Cachoeirinha por um barraco na vila ZeroHora, onde está até hoje. Quando Dani era menor, “SêoZé” sempre a levava junto no carrinho que puxava pela cidade, pegando os preciosos papelões. O pessoal das lojas ficou com pena e começou a guardar os papelões para aquele senhor que sempre carregava a filhinha no carrinho.
E assim cresceu Dani, na carona do carrinho do pai. Para ela era diversão pura.
Quando fez nove anos, “SêoZé” achou que estava na hora de Dani ir para a escola. Sabia que ia sentir falta da filha, que durante todo este tempo o acompanhara, mas também sabia que ela precisava aprender o significado daqueles tracinhos que apareciam nas caixas de papelão e dos jornais que ele juntava. Também, embora Dani caminhasse bastante ao seu lado, quando ela cansava, “SêoZé” tinha que carregá-la dentro do carrinho e ela já não era mais tão “levinha” assim.
Na noite em que “SêoZé” disse para Dani sua decisão, parecia que iam levá-la para a forca. Pela gritaria e choradeira, poderia se deduzir que estavam matando alguém. Mas “SêoZé” já havia tomado a decisão e havia matriculado Dani no coleginho do outro lado da Ipiranga. Eram menos de duzentos metros para sair de casa e chegar à aula.
Em pouco tempo a resistência de Dani desaparecera e hoje ela até gosta de ir à aula.
Aula pela manhã, brincadeiras a tarde toda, que ninguém é de ferro. Sua maior atenção é dedicada ao futebol. No começo, sofrera alguma resistência. Na hora da escolha dos times, nunca era escolhida. Sobrava para o último time. Mas jogava bem e agora era uma das primeiras a serem escolhidas.
Os melhores amigos dela são Léo e Negrinho, companheiros de todas as horas. Tinham quase a mesma idade e conviviam juntos, moravam na mesma vila.
Guria cresce mais rápido, mas Dani havia crescido mais no corpo do que em espírito. Há mais de ano começara a namorar Rafael, Negrinho como era conhecido na vila. De negro, Negrinho não tinha nada. Mereceria mais o apelido de Alemão, mas nascera gêmeo e seu pai, para diferenciar os bebês, apelidara o que tinha a pele mais escura de Negrinho. Seu irmão falecera com poucos meses de vida, mas o apelido Negrinho carregava até hoje.
A revolta é uma constante na vida de Negrinho ....
Mas sempre havia os jogos de futebol, as fugidas nas praias do Rio Guaíba no verão, nos dias de passe livre.
Havia também a companhia de seus dois amigos, Dani e Léo.
E agora a Dani que durante tanto tempo fora sua amiga, agora sua namorada e sua amante. Mas ninguém sabia disto até algum tempo atrás, nem Léo.
Entretanto, quando a gravidez tornara-se aparente, não fora mais possível esconder de ninguém.
Léo fora o que ficara mais chateado no início.
Mas depois passou ...
Continuaram jogando futebol enquanto dera.
“SêoZé” jurara de morte Negrinho, que fugira não se sabe para onde.
..........
Agora a filhinha de Dani estava sob os cuidados de Léo, que jurara cuidar dela como se sua filha fosse. Léo, “SêoZé” e a neta saiam diariamente para catar papelão. Ah agora quem puxa o carrinho é Léo.
Dani? Não sabiam onde andava.
Corria à meia-boca que saíra no mundo, provavelmente tentando achar Negrinho.
Fernando Noronha – Tio Nonô RC
©by Nonô – 26 de setembreo de 2014.
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